‘Arida: Backland’s Awakening’ – Levando o sertão para o mundo

Fomos convidados a testar a edição de aniversário de dois anos de 'Arida: Backland's Awakening', um jogo brasileiro que se passa no sertão durante a Guerra de Canudos. Vem ver o que nós achamos!

Uma protagonista nordestina e nativa do sertão da Bahia, um projeto feito com apoio do governo estadual e uma história focada na Guerra de Canudos que foi tão boa que chegou a ser indicada a quatro prêmios. Parece uma utopia, mas é só uma descrição rasa do game ‘Arida: Backland’s Awakening’, lançado em 2019 e criado pelo estúdio independente Aoca Game Lab.

Backland’s Awakening é, na verdade, a primeira parte de uma série de jogos ambientados durante a Guerra de Canudos e que devem mostrar o conflito na vida do sertanejo comum. Já nesse primeiro título, descobrimos o motivo da busca pelo povoado prometido e o impacto da migração nas pequenas vilas nas redondezas, conforme visto pelos olhos de Cícera, uma jovem de 13 anos finalizando os preparativos para sua peregrinação com o avô em busca de Canudos.

Trailer oficial de ‘Arida: Backland’s Awakening’

De onde surgiu a ideia de Arida: Backland’s Awakening?

Filipe Pereira, chefe do projeto, é formado em história e, mais tarde em sua carreira, migrou para o mundo dos jogos, buscando criar títulos educativos e com ênfase na área acadêmica. A ideia para Arida surgiu, então, quando o governo da Bahia lançou um edital para a criação de um game focado na Guerra de Canudos, embora, a esse ponto, ele já tivesse deixado a ideia de jogos educativos para trás, e procurasse algo que atraísse um público mais amplo.

Para ter certeza de que o projeto faria jus à variedade cultural do sertão nordestino, o time de desenvolvimento, composto de pessoas da capital baiana, decidiu fazer uma pesquisa de campo e conhecer o ambiente que estavam recriando. Foi ali que perceberam a direção certa quando, observando a fauna e a flora local, escolheram fazer com que o ambiente do jogo fosse simplesmente um retrato 3D daquele povo.

E a gameplay, como funciona?

Durante a fase de testes, os desenvolvedores se inspiraram em jogos como ‘The Flame’ e ‘The Flood’, mesmo que, segundo os playtesters, a sensação do gameplay seja bem semelhante à de títulos do Nintendo 64, em especial ‘The Legend of Zelda’.

Na versão final, é impossível não reparar na inspiração, admitida até pela própria Aoca, que é fã de jogos clássicos. Mesmo assim, Arida tem seus próprios méritos e deve ser visto como o título independente que é.

Um survival ambientado no sertão, com uma protagonista feminina de 13 anos de idade em busca do povoado prometido de Canudos, é uma ideia incrivelmente original e, até o momento, única. A campanha é bem curtinha, durando aproximadamente duas horas, mas consegue contar uma história bem precisa, fazendo com que o jogador se importe tanto com a protagonista, quanto com os personagens secundários.

Cícera passa a maior parte do game buscando recursos para amolar suas ferramentas e conseguir comida e água, enquanto ajuda os últimos habitantes de sua vila e se prepara para cruzar o sertão. É possível ver os efeitos da seca no bioma, com o horizonte sendo permeado por árvores secas, cactos e animais que sucumbiram à sede.

Tal qual no período original da história, 1896, água é um recurso extremamente escasso e, após secar as fontes naturais, é preciso extrair o líquido de cactos ou fazer suco de frutas. Alimentos salgados, como carne seca, podem fazer com que Ciça tenha mais sede e, por isso, acabam sendo deixados para emergências.

Outro ponto muito legal é que, durante o período em que o messianismo ficou famoso, a religião era extremamente valorizada entre o povo sertanejo, hábito refletido no jogo, já que só é possível salvar o progresso do jogo em oratórios, onde a protagonista reza para seu santo.

E, se você ainda não está convencido que esse game é bom, ainda é possível encontrar colecionáveis ao longo do mapa que possuem, no inventário, explicações de sua importância na história dos diferentes habitantes do sertão. Um prato cheio para os apaixonados pela história do Brasil, né?

O que esperar do universo do game e qual o futuro da franquia Arida?

Agradando todas as idades, ‘Arida: Backland’s Awakening’ é mais do que um jogo educativo, ele vai mostrar Canudos pelo ponto de vista dos mais afetados por sua ascensão e queda: os sertanejos. Todos aprendemos sobre a influência de Antônio Conselheiro e o medo que ele despertava na elite da época, mas pouco ouvimos falar sobre o que levou tanta gente a segui-lo. 

Backland’s Awakening nos apresentou Cícera, deu seu motivo para rumar em busca do povoado e possuiu uma atmosfera relativamente alegre. Contudo, de agora em diante, Ciça está sozinha e, já no final da campanha, as coisas começam a mudar. A seca fica pior, a poeira aumenta e nossa protagonista quase não consegue sair de seu vilarejo.

Agora, os desenvolvedores sabem que não podem tornar tudo leve e bem humorado, já que você é uma jovem de 13 anos sozinha e desbravando um sertão desconhecido. Porém, eles prometem que, com a mudança de tom, teremos também um sistema de crafting mais elaborado e um mapa maior.

Eu estou seriamente animada para o que vem por aí, Cicera é uma protagonista forte e possui o poder da mulher nordestina arretada, contornando todos os desafios que lhe são impostos e seguindo em frente apesar de sua dor, como uma sobrevivente.

‘Arida: Backland’s Awakening’ é uma carta de amor à história do sertão brasileiro e, além de ser indispensável para gamers apaixonados por história do Brasil, torna a Guerra de Canudos interessante não apenas para crianças que ainda não a conhecem, mas também para aqueles que não estão familiarizados com a história do país.

Onde comprar ‘Arida: Backland’s Awakening?

Backland´s Awakening está disponível na Steam por R$13,99 e você já pode adicionar a sequência dele, Rise of The Brave, em sua lista de desejos, embora esse último ainda não tenha data de lançamento fixa.

Anna Luíza Mosson
Estudante e geek, você provavelmente pode me encontrar jogando videogame, vendo séries e filmes ou lendo algum livro. Vida longa e próspera!