Crítica | Ambulância: Um Dia de Crime

Com estreia prevista para amanhã (24), o longa cria muitas expectativas, mas não deixa a desejar para quem curte uma boa perseguição policial.

Crítica | Ambulância: Um Dia de Crime

Nos cinemas de todo o Brasil, o longa cria muitas expectativas, mas não deixa a desejar para quem curte uma boa perseguição policial. Confira a crítica do filme, a seguir.

Ao me deparar com o título do longa, pensei logo na franquia The Purge (Uma Noite de Crime), do diretor estadunidense James DeMonaco. O que não fez sentido foi a palavra ambulância ali no começo.

Quando o filme começa, já podemos perceber as características marcantes de seu diretor, Michael Bay (Transformers), conhecido por seus filmes de orçamento extravagantes, cortes rápidos e explosões – além de um comportamento misógino e misógino em seus filmes, o que não foi o caso neste. Bay traz de volta a nostálgica sensação de filmes dos anos 2000, principalmente para quem curte uma boa perseguição policial.

Eu não chamaria Bay de progressista por fazer um filme com representatividade, já que, hoje em dia, é o mínimo que se espera de grandes produtoras, diretores e roteiristas. Veremos tal progresso durante as próximas produções em sua carreira, seus comportamentos em entrevistas e coletivas de imprensa.

Elenco principal se reúne com diretor para foto, sentados nos fundos da ambulância.

Dito isso, é importante destacarmos aqui que há, de fato, um brilhantismo no filme, que traz uma perseguição implacável, truques militares e muita destruição ao longo de toda a trama. O filme traz um passeio de drone em muitos momentos, com rasantes e tomadas incríveis que só um orçamento extravagante pode proporcionar. Durante as cenas, um dos personagens justifica o esbanjamento de Bay nos carros policiais sendo trocados a todo momento: o efeito de que existem muito mais policiais à espreita do que eles imaginam. Esse efeito cria, até mesmo em nós, espectadores, a ideia de que o elenco é muito maior do que realmente é.

A trama é muito bem orquestrada e há uma introdução gradual e contextual dos personagens, como a do Capitão Monroe (Garret Dillahunt) e o agente especial Clark (Keir O’Donnell). Esses contextos ficam muito evidentes na história de um dos protagonistas, Will Sharpe (Yahya Abdul-Mateen II), que está naquela situação porque precisa de dinheiro para ajudar a esposa, que tem câncer e precisa de uma cirurgia experimental.

Jake Gyllenhaal segura duas armas, uma em cada mão, em posição pré-ataque, com ambulância de fundo.

Outro ponto de destaque é a forma com que o humor aparece no filme, de forma leve, sem se aproveitar de minorias ou gêneros. Essa foi a grande sacada da adaptação do filme, que conta com um roteirista que atuou no original (Ambulancen, 2005), Laurits Munch-Petersen (Between Us), como o socorrista que dirige a ambulância.

Uma característica do roteiro que eu ainda não sei se é intencional ou não, mas que vem sendo utilizada em outros filmes, é que ele se arrasta por duas horas, nos deixando apreensivos e esperando um grande ponto de virada, como nos roteiros tradicionais, mas que não acontece.

Um exemplo disso é quando a ambulância será trocada por outras (um truque militar) e é pintada de verde, esperamos que isso vai resolver o problema e eles se safarão, como os clássicos filmes que fazem a gente se apegar pelos vilões e que eles precisam se salvar no final, Neste caso, a fuga continua e, para quem curte uma boa perseguição policial, pode ser um momento rápido de dar aquela respirada, mas sem tirar o olho da tela.

Como eu disse, essa característica já vem sendo mudada há algum tempo, e é de se refletir que, mesmo que nos apeguemos aos vilões, eles ainda são vilões, seja por causa das circunstâncias ou não, e devem receber “punições”, por mais que suas intenções sejam boas.

Jake Gyllenhaal mira arma de dentro da ambulância.

O roteiro nos faz criar uma simpatia por Will (Yahya Abdul-Mateen II) e tentarmos compreender quais transtornos justificam o comportamento de Danny (Jake Gyllenhaal), que apresenta variações de humor, comportamento passivo agressivo, mas grande apego às relações familiares. O filme traz um pouco da relação dos irmãos, principalmente por conta do Will ser adotado e o pai deles já ser um ladrão conhecido pela polícia e admirado entre os seus iguais.

Contudo, é a personagem Cam (Eiza González) que sustenta a essência do filme do começo ao fim, por ter um histórico de não se comprometer com seus pacientes, a socorrista acaba tendo que colocar sua própria vida em jogo para ajudar um policial baleado, criando afeição, até mesmo, pelo próprio Will.

Eiza González segura o ombro esquerdo com a mão direita, olhando para o horizonte.

Essa é a real mensagem do filme: até que ponto as pessoas as tomam atitude desesperadas para continuar vivendo no mundo quebrado em que estamos. Essa mensagem fica clara nas decisões de Will e de Cam, mas fica muito nítida a desumanização das pessoas e dessensibilização em seu cotidiano.

Nós pensamos sempre que isso é um aspecto estadunidense, de que as pessoas são mais frias por lá, principalmente porque tudo tem um preço e é bem caro, mas essa frieza está muito presente, por exemplo, quando passamos por um segurança terceirizado, com o semblante fechado, que não responde sequer o nosso “bom dia”. ou a pessoa que é irredutível em tratar o outro sem sequer compreender o que o levou a estar ali.

Yahya Abdul-Mateen II aparece em foco, do lado esquerdo, olhando para Jake Gyllenhaal, que está de costas, segurando seu ombro direito.

No caso de Will e de outras pessoas nos Estados Unidos – e, principalmente no Brasil, não é a ocasião que faz o ladrão, mas a simples existência em um mundo ultraliberal, com um sistema econômico falido e sem perspectiva de qualidade de vida. Na vida real, o destino de Will seria outro e muitos chamariam isso de justiça.

Nota do autor:

Avaliação: 2.5 de 5.