Críticas

Vamos falar sobre ‘Bela Vingança’ e seu retrato da sociedade atual?

O filme ‘Bela Vingança’ foi lançado ano passado e conquistou cinco indicações ao Oscar, contudo, bem mais que um drama protagonizado por uma mulher traumatizada, ele é uma denúncia à nossa sociedade e ao que as mulheres passam diariamente.

  Anna Luíza Mosson    sexta-feira, 23 de julho de 2021

O longa traz Carey Mulligan como protagonista

Atenção: A análise abaixo contém spoilers do filme ‘Bela Vingança’. Siga por sua própria conta e risco.

Alerta de gatilho: Conforme o tema do longa, a análise vai tratar de temas que podem causar desconforto para alguns leitores, como estupro, suicídio e estresse pós-traumático.
O filme Bela Vingança, escrito e dirigido por Emerald Fennel, é um belo exemplo da cultura do estupro e uma obra que representa uma personagem feminina vingativa de maneira extremamente realista. O longa foi indicado a cinco estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, melhor direção e melhor atriz.
A produção apresenta Carey Mulligan como Cassie, uma mulher de 30 anos que foi extremamente promissora quando mais nova. A personagem havia frequentado uma faculdade de medicina prestigiada até que sua melhor amiga foi estuprada em uma festa e, por conta do estresse pós-traumático, cometeu suicídio. Cassie nunca se recuperou totalmente e, no começo da trama, trabalha em um café durante o dia e passa as madrugadas se fingindo de bêbada para vingar-se de caras que tentam tirar vantagem de garotas vulneráveis.
A história realmente começa quando a moça decide dar uma chance à sua felicidade e namorar um ex-colega, Ryan. Contudo, não se engane, esse não é um romance! O namoro faz a personagem se lembrar dos colegas que presenciaram e colaboraram para a deterioração do estado mental de sua melhor amiga, Nina, e a leva a tomar a decisão de se vingar de cada um deles. Essa é a direção da trama, o trauma de Cassie e sua vingança, mas há uma grande metáfora escondida nas entrelinhas do filme e muito a se descobrir sobre a protagonista.
Cassie é uma personagem extremamente bem trabalhada, principalmente psicologicamente. Fica claro que ela sofre de estresse pós-traumático, já que ela perde o interesse por sua vida pessoal e profissional, levando seu pai a dizer até que sente falta dela. No começo, você pensa que a moça está apenas lidando com sintomas do luto, porém, uma cena do meio do filme mostra-a acordando em seu carro no meio da rua, completamente confusa. Perda de períodos de tempo e blackouts são um dos sintomas do TEPT. Ela também perde a noção do tempo, esquecendo até de seu próprio aniversário.
Tendo em vista que a protagonista está doente, você percebe durante a trama que a Cassie nunca é apresentada como um modelo a ser seguido e, sua vingança, nunca é vista como algo que vai satisfazê-la. A Diretora, Emerald, disse em entrevista que buscou tornar o longa o mais real possível, e é por isso que Cassie nunca tentou matar os agressores, mesmo quando a audiência torcia para que ela o fizesse. Ao invés disso, em seus planos vingativos, ela busca apenas fazer com que seus alvos entendam o que sua melhor amiga passou e tentem mudar sua opinião.
O filme também não coloca todos os homens no mesmo saco. Ryan, por exemplo, é apresentado como um cara gentil e legal. Já Madison, outra colega da faculdade, torna-se alvo da vingança por sua atitude omissa. A mulher diz que todos pensavam que Nina estivesse apenas arrependida de dormir com seu agressor e, portanto, dispensou todo o incidente como drama.
A própria reitora da universidade mostra-se machista ao dizer que eles recebem queixas do tipo toda semana e, que para ela, é injusto acabar com o futuro brilhante de um garoto tão bom por conta de uma acusação sem provas, chegando a dizer até que a mulher violentada tem culpa por se colocar em uma situação vulnerável. Tenha em vista que, quando Nina denunciou seu estuprador, ela estava coberta de machucados ocasionados no momento do crime, aparentemente isso não são provas. Enquanto a garota nunca se recuperou, Alexander, seu agressor, está livre e prestes a se casar.
A realidade é que Alexander não agrediu apenas Nina, ele agrediu cada uma das pessoas que a amavam. Ele agrediu sua mãe, que perdeu a única filha e nunca se recuperou, ele agrediu Cassie, que largou a faculdade para cuidar da traumatizada melhor amiga e passou o resto da vida se culpando por não ter estado na festa com ela, ele agrediu os pais de Cassie, que perderam a filha para o luto e, por fim, ele agrediu cada mulher que já foi agredida por um rapaz em uma festa onde, supostamente, havia apenas pessoas de sua confiança.
Uma cena do longa que pode ser facilmente esquecida em meio a todos os acontecimentos do filme, mas que me marcou imensamente e me fez refletir foi a cena que Cassie, como parte de sua vingança, finge ter levado a filha da reitora da universidade para se embebedar com garotos da faculdade. A reitora, ao descobrir a situação da filha, se desespera e começa a gritar, mudando sua opinião em relação ao papel de uma mulher em seu assédio e pedindo que Cassie conte onde está sua filha. Há duas mulheres do lado de fora da sala que, escutando os gritos da mulher, ignoram. Uma simples cena representa cada vez que uma de nós ignora os gritos de outra mulher. Será que nos tornamos complacentes com a violência ao escolhermos ignorar? E será que, como Cassie disse, a maioria de nós só seja capaz de compreender a falta de culpa da vítima de um assédio ou estupro quando a vítima é parte de nosso círculo próximo?
O auge da crítica do filme, porém, é atingido com a morte de Cassie, um evento triste e extremamente importante. Após assistir um vídeo do estupro de Nina, a mulher descobre que seu namorado, Ryan, estava presente no momento e, enojada, ela decide confronta-lo. O homem usa a desculpa de que era jovem, não queria que seus amigos o excluíssem e aquela rotina que já ouvimos milhares de vezes. Ele se desculpa e diz que ama Cassie, e parte de você realmente deseja que ele tenha mudado. A realidade vem à tona quando Cassie não o perdoa e sai decidida a ir até a despedida de solteiro de Alexander confrontá-lo após todos esses anos.
Ela se fantasia de stripper e, depois de drogar a bebida de todos os participantes da festa, sobe com Al para o quarto, onde ele é algemado e confrontado pela moça. Alexander até pede desculpas, mas depois volta o assunto para ele e como foi difícil para ele, como homem hétero cis branco, lidar como uma “acusação” daquelas.

Cassandra acaba por perder a paciência e, no único momento do longa onde escolhe utilizar violência, decide marcar o nome Nina na pele do homem com um bisturi, para simbolizar o que a amiga havia vivido, ouvindo apenas o nome dele várias vezes em sua cabeça, até perder a sanidade mental.
Mas, como um filme realista, Al consegue se soltar de uma das algemas e mata Cassie sufocada em uma das cenas mais marcantes do filme. O episódio dura cerca de dois minutos e meio, onde você pode ver a expressão do assassino. A diretora diz ter feito a cena com o comprimento exato de tempo que levaria para sufocar alguém, além de dizer que, por mais que ela quisesse que Cassie triunfasse sobre os homens ao final do filme, ela não poderia fazer isso de maneira realista. Na vida real, se uma mulher sem preparo físico vai para cima de um homem duas vezes maior que ela, é provável que ela perca e, infelizmente, era isso que ela tinha que retratar no filme.

A morte de Cassie, contudo, é apenas um dos elementos que tornam o final tão simbólico. Na manhã seguinte, quando encontra o corpo da mulher em cima da cama com o amigo, o padrinho de Alexander o ajuda a queimar o corpo e ainda repete que a culpa não era dele, que ele não tinha escolha. E Al, como o bom moço que é, se preocupa com o que sua noiva vai pensar, em como sua família vai ficar decepcionada e em como ele não pode ir para a cadeia e perder o emprego. Em nenhum momento ele se preocupa com a vida perdida de Cassie ou com seus pais. Existe paralelo maior com a cultura do estupro, onde é dito que os “garotos” merecem outra chance, que foi uma escolha ruim no meio de tantas realizações e que não se pode roubar o futuro deles. A verdade é que, assim como na vida real, há a desumanização da vítima em favor da humanização do agressor. Talvez ambos devessem ser humanizados, mas não às custas da vítima da história.
Quando Cassie não volta pra casa, seus pais a reportam como desaparecida e, como parte da investigação, os detetives vão atrás de Ryan. Quando o policial pergunta de Cassie, sabendo onde ela estava, o homem deve ter percebido que seus amigos a mataram no mesmo momento, mas, seja por priorizar os amigos ou por medo de contar a verdade e correr o risco dos policiais encontrarem o vídeo em que ele é cúmplice de um estupro, Ryan dá a entender que sua ex-namorada era depressiva e poderia ter tentado se matar. Ele dizia que a amava, mas entre ter justiça por sua morte ou ter sua reputação manchada, ele escolheu a segunda opção, mostrando que, provavelmente, ele ainda é o mesmo moleque da faculdade de medicina que riu enquanto seu colega violentava uma garota desacordada.

Porém, Cassie não era burra, ela deixou mensagens preparadas para serem enviadas em caso de seu desaparecimento. No fim, Alexander é preso pelo seu assassinato e, embora ela não tenha soltado o vídeo incriminante do estupro, Cassie conseguiu fazer com que Ryan morresse de medo ao ver que haviam mensagens programadas sendo enviadas para seu telefone.
Bela Vingança é uma crítica à cultura do estupro, mostrando como cada um de nós pode ser cúmplice, mesmo que por omissão. Todos deveriam assistir a esse filme e refletir sobre suas atitudes, mas essa não é a realidade e, portanto, talvez devamos apenas utilizá-lo como ponto de início para um debate maior. O importante é que, após assistir ao filme, seja você homem ou mulher, você repense no que irá fazer da próxima vez que ver uma mulher bêbada ou gritando por ajuda.O filme foi indicado ao Oscar