Críticas

Crítica – ‘O Dilema das Redes’, uma realidade virtual inconveniente

Com tema inesgotavelmente atual, documentário O Dilema das Redes assusta ao escancarar como o uso irresponsável das mídias sociais está piorando o mundo.

  Bruno Aires    quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Reprodução/Internet

Talvez você só esteja lendo essa resenha porque o algoritmo da rede social que te trouxe aqui viu que você gostou do documentário ou sabe que você se interessa pelas notícias do Nerd Site. Mas não posso deixar de nutrir a nossa bolha dando a minha contribuição sobre a feliz realização que é O Dilema das Redes (The Social Dilemma, no original). Mais do que isso, reverberando essa necessária discussão, que, apesar de não ser uma novidade, tem ganhado contornos recorrentes e dramáticos ao redor do mundo.

Há anos, Google, Facebook e outros gigantes da tecnologia são alvos de sabatinas públicas e interrogatórios de políticos e cortes de Justiça na Europa e nos EUA, geralmente sobre a coleta, armazenamento e uso dos nossos dados. O debate se inflamou após 2016, com o escândalo do caso Cambridge Analytica nas eleições americanas, e perpassa campanhas de boicote às mídias, como o novamente em voga #StopHateForProfit, que pede às empresas que suspendam seus anúncios nas redes.

O documentário da Netflix fala sobre a influência das mídias sociais no nosso cotidiano. Sobre como essas ferramentas deixaram de ser objetos passivos, úteis em nos ajudar a construir um mundo de mais conhecimento e proximidade, e passaram a se tornar elementos desencadeadores da nossa mudança de comportamento. Algoritmos frios, que visam nos manter a maior quantidade de tempo possível na frente das telas, às custas de conteúdos irresponsáveis e irreais, como as graves fake news.

Mais do que abordar situações como as aqui citadas, que no filme são apenas pinceladas para contexto, sua força reside nos depoimentos de ex-colaboradores das próprias empresas que são alvos das críticas, além de pesquisadores e estudiosos das ciências humanas e tecnologias. São pessoas que participaram da criação de algumas das ferramentas, antigos executivos das companhias, profissionais da área de computação, pessoas responsáveis pela monetização das mídias, entre outros.

Reprodução/Internet

Discursam ali Tristan Harris, cientista da computação que deixou o Google para fundar sua empresa de tecnologia responsiva e voltada ao bem-estar; Jeff Seibert, que foi chefe de Consumo do Twitter e liderou iniciativas de produtos para o Android e IOS; Jaron Lanier, um dos pioneiros no estudo de realidade virtual no mundo, defensor ferrenho do fim das mídias sociais. Sempre pontuados por especialistas em comportamento como Shoshana Zuboff, autora, psicóloga e doutora por Harvard. Um time e tanto.

Para muitos, o filme pode soar alarmista. Talvez o seja, até. Mas seu trunfo foi ter conseguido, por meio desse time e de um roteiro cirúrgico – que faz uso de uma dramatização muito bem feita para gerar empatia junto ao público –, alimentar debates sobre a necessidade de mudarmos as nossas relações com as redes sociais. Parece ter sido o objetivo, certo? E, numa sociedade democrática, a reflexão só contribui.

Mais do que isso. Como profissional de Comunicação que atua diretamente com as principais ferramentas citadas ali, fiquei satisfeito em ver uma discussão madura, que fugiu do maniqueísmo fácil que poderia transformar as companhias em vilãs. Há críticas, obviamente, em especial à inércia ou falta de interesse em prover uma mudança real. Mas os depoimentos apontam que o objetivo inicial parecia ser, ao menos, inofensivo. Um dos entrevistados, inclusive, relata em tom de desalento que, quando participou da criação da reação de “curtir”, pensava em espalhar mais positividade no mundo.

A conclusão é individual, claro. Mas mesmo quem aparece falando no vídeo não acredita que as pessoas vão deixar suas redes sociais depois que assistirem ao conteúdo. O documentário, aliás, tem seus canais oficiais nas mídias (com a devida explicação dos criadores). Talvez a chave esteja mesmo no tão famigerado equilíbrio.


Bruno Aires

Bruno Aires

Jornalista carioca que não gosta de futebol e de cerveja, Bruno aprendeu a ler com a Turma da Mônica e só gosta de assistir filmes e séries na ordem cronológica.

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