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Viola Davis diz que “traiu a si mesma” com papel em ‘Histórias Cruzadas’

Atriz disse que o filme é muito limitado e conta a história dos negros focado no público branco.

  Paulo C. Góis    quarta-feira, 15 de julho de 2020

Viola Davis no filme ‘Histórias Cruzadas’ (Dreamworks Pictures/Kobal/REX/Shutterstock)

Viola Davis comentou antes sobre seu arrependimento por ter participado do filme Histórias Cruzadas, de 2011.

Mas, em uma nova entrevista à Vanity Fair, e dentro do contexto dos recentes protestos do movimento Black Lives Matter, ela se dedicou a elaborar mais detalhadamente como o enredo do filme atende principalmente aos espectadores brancos.

“Poucas narrativas também são investidas em nossa humanidade”, disse ela. “Eles investiram na ideia do que significa ser negro, mas… está atendendo ao público branco.”

Davis continuou explicando que, embora o filme possa fornecer algumas dicas sobre algumas das experiências dos negros americanos, sua estrutura e as vozes que escolhe centralizar não contribuem para uma maior cultura de entendimento.

Ela não se arrepende de trabalhar com o elenco e o diretor-roteirista, diz ela na entrevista. Pelo contrário, é o insight profundo do filme sobre sua personagem, Aibileen, que o colocou no caminho errado, optando por contar a história por uma perspectiva branca.

“O público branco, no máximo, pode sentar-se e obter uma lição acadêmica sobre como somos”, disse ela. “Então eles saem do cinema e falam sobre o que isso significava. Eles não são movidos por quem nós éramos.”

Davis assumiu o papel na esperança de que ela “chegasse ao estrelato”, o que ela disse ser uma oportunidade que poucas mulheres negras têm a chance de tentar. Mesmo assim, ela disse que a hesitação do filme em compartilhar uma história mais abrangente e precisa a deixou decepcionada por seu envolvimento.

“Não há ninguém que não seja entretido por Histórias Cruzadas”, ela diz, “mas há uma parte de mim que parece ter me traído, e meu povo, porque eu estava em um filme que não estava pronto para contar toda a verdade.”

Histórias Cruzadas foi um dos filmes mais procurados na época dos protestos do Black Lives Matter, mas muitos críticos e escritores de cinema destacaram que havia muitos outros títulos que trariam maior entendimento às questões.

Davis estava hesitante em se juntar aos grandes protestos no meio de uma pandemia, disse ela à revista, mas organizou uma pequena manifestação mascarada em Studio City, onde ela exibia uma placa com a inscrição “AHMAUD AURBERY”.

Para Davis, no entanto, seus protestos não começaram com o aumento do ativismo pela justiça racial este ano. Ela disse que suas ações sempre foram um ato de protesto.

“Sinto que minha vida inteira foi um protesto. Minha produtora é meu protesto. Eu não usando peruca no Oscar de 2012 foi meu protesto. É uma parte da minha voz, assim como me apresentar a você e dizer: ‘Olá, meu nome é Viola Davis’.”


Paulo C. Góis

Paulo C. Góis

Paulo Cesar Góis, tradutor e redator. Foi introduzido por Harry Potter no mundo nerd. Desde então devorou de Duna a Sandman, e usa a fantasia e a ficção científica para tornar o universo um pouco mais mágico.

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