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Crítica | Hereditário consegue ser mais um bizarro, instigante e diferente filme de terror desta nova geração

Em linhas gerais, Hereditário pode não ser “O Exorcista” desta geração, como vendido no trailer, mas com certeza é um filme de muita qualidade.

  Luis Borgia    quarta-feira, 20 de junho de 2018

A produtora independente americana A24 Films, tem sido responsável por muitas produções de sucesso (de crítica) nos últimos tempos, como “Lady Bird”, “Projeto Flórida”, “Bom Comportamento” e “Moonlight”. E interessantemente, no gênero do terror não tem sido diferente, com filmes como “Ao Cair da Noite”, “Green Room” e “A Bruxa”. Porém, os filmes da produtora dividem a opinião do público geral, não sendo exatamente o que muitas pessoas buscam quando vão ao cinema, e consequentemente, a maior parte destes projetos, não são grandes sucessos de bilheteria.

O novo lançamento Hereditário, com certeza ainda segue este mesmo estilo de filmes, mas por quê então, que a A24 não muda os tipos de filmes que produz, se esses não fazem dinheiro nos cinemas? A resposta é simples, estes filmes têm vida em festivais, eles procuram um outro caminho de reconhecimento, onde a “resposta” da crítica, acaba sendo a mais relevante na distribuição destes longas. Eles buscam seleções em festivais e prêmios nestes para se bancar, e no caso de algumas produções de terror ainda, como “A Bruxa”, também fazem um dinheiro razoável em bilheteria, pois querendo ou não, filmes de terror vendem fácil. E além do que, os orçamentos dados pela produtora são pequenos, o que torna o retorno ainda muito mais viável de se atingir, pelo caminho que for.

Isto ponderado, Hereditário talvez não seja um filme para todos os tipos de público. Neste longa escrito e dirigido pelo estreante Ari Aster, seguimos a história de uma família em luto, que continua a ver terríveis coisas acontecer com eles, e assim, segredos muitos mais sinistros e impensáveis começam a se revelar.

O roteiro é um dos aspectos mais interessantes aqui, e onde o filme mostra muito de seu diferencial. No primeiro ato, temos uma estrutura familiar até, que evoca o horror gótico em muitos dos elementos apresentados. Conseguimos sentir uma “vibe” de casa mal-assombrada, e vemos a família sofrer pela recente morte da avó. Porém, na virada para o segundo ato, é onde as coisas começam a tomar caminhos diferentes, e quanto mais nos aprofundamos na história, menos sabemos que tipo de filme realmente se trata. No meio da sessão, eu realmente não sabia se estava gostando ou não de Hereditário.

Mas quando chega em seu ato final, o filme começa a amarrar os elementos que ficaram como “estranhos” e “perdidos” no meio da narrativa, e é quando você pode notar a qualidade da escrita de Aster. O último ato te leva para um caminho inesperado, perturbador e engajante, que te prende como espectador por completo. A única ressalva que tenho quanto ao roteiro, é na cena final, onde se entrega demais da história, se mastiga demais para o espectador todos os segredos do longa.

Ari Aster realmente demonstra um futuro brilhante, escrevendo e também dirigindo. Seguindo razoavelmente a linha dos outros filmes já mencionados da produtora, ele opta por um ritmo mais lento para seu projeto, com movimentos de câmera sempre suaves e estilosos, e que junto com o que estamos vendo em cena, causa muita agonia e te enerva extremamente (de forma positiva). Este estilo de direção é seguido durante quase todo o longa, com exceção à um momento na parte final, onde realmente a montagem e a decupagem necessitavam de mais energia. As escolhas de ambientação e fotografia são chamativas e demonstram um senso de detalhismo enorme do diretor, que na minha opinião, só tem algumas escolhas erradas em algumas cenas, que precisariam ser de puro terror. Ele consegue criar a tensão nestas de forma precisa, mas acaba desarmando este potencial, por algum uso sonoro ou indicação de reação dos atores equivocado, causando inclusive, ocasionais risadas. Mas num geral, há sim momentos intensos e perturbadores no longa, com algumas imagens razoavelmente fortes e cenas de muito suspense.

Já as atuações, são um ponto surpreendente aqui. Não por parte de Toni Collette claro, pois já sabemos o nível desta experiente atriz. E ela realmente se entrega por completo no papel da mãe Annie, passando toda a insanidade, tristeza e até sociopatia de sua personagem com uma facilidade enorme (há especulações de uma possível indicação ao Oscar ano que vem, e eu apoio completamente). O pai da família, Steve, interpretado por Gabriel Byrne, é incrivelmente bem feito, inclusive fazendo mais com o papel do que o roteiro lhe dá. Milly Shapiro como a introspectiva e porque não, bizarra irmã mais nova Charlie, faz exatamente o que se pede dela. É perturbadora, estranha e completamente enigmática. Por fim, Alex Wolf, como o filho Peter, é ao lado de Collette o que mais têm destaque aqui, e realmente mostra ter se tornado um ator com um potencial gigantesco. Ele consegue guardar muito sentimento dentro de si, transmitir apenas o mínimo necessário, e isso combina perfeitamente com seu personagem, que pela maior parte do filme, está caindo em depressão e loucura.

Em linhas gerais, Hereditário pode não ser “O Exorcista” desta geração, como vendido no trailer, mas com certeza é um filme de muita qualidade, que leva seu mistério a frente de forma perfeita, e que consegue ser enervante e bizarro, de uma forma positiva, é claro.


Luis Borgia

Luis Borgia

Colaborador, cineasta formado. Crítico de cinema para o site. Apaixonado por café, filmes de terror e comédia.

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