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Maurício Ricardo é o rei das charges há 18 anos na internet

Conversamos com o cartunista sobre carreira, redes sociais, BBB e política

Mauricio Ricardo

Se você já usava a internet no início dos anos 2000 deve lembrar da febre das charges animadas, com personagens como o entrevistador Tobby e a dupla Espinha e Fimose. Os fãs do Big Brother Brasil também conhecem bem as sátiras animadas que fizeram sucesso quando o reality ainda era apresentado por Pedro Bial. Em comum entre esses trabalhos e públicos está Maurício Ricardo, um dos cartunistas mais importantes do país, que tem conseguido transportar para as redes sociais a criatividade e humor que lhe renderam milhares de admiradores desde a primeira charge, há quase 40 anos.

Criador do site Charges.com.br, um dos maiores portais de humor do país, o chargista Maurício Ricardo Quirino tem o reconhecimento da turma da web há 18 anos e precisou lidar com as dificuldades da profissão para fazer o que gosta. Filho de jornalistas, chegou a dirigir um jornal antes de largar tudo para apostar em seu sonho e engrenar na animação para internet. E inovou em seu meio, sendo a primeira pessoa por aqui a criar, animar e dublar seus próprios desenhos online, com produção diária.

O Nerd Site conversou com o cartunista sobre quase tudo: o início da carreira, o papel do humor, sua saída do BBB e, claro, política. Quem segue as redes do fluminense de nascimento e mineiro de criação sabe que, além de fera na animação, o cara não resiste a um comentário ácido sobre a situação complicada pela qual passa o Brasil. Característica habitual de suas esquetes animadas, diga-se de passagem, quase sempre recheadas de críticas e referências à corrupção, violência e outros problemas do nosso cotidiano.

Confira abaixo a entrevista na íntegra. A gente não tem o talento do Tobby, mas se esforça!

Nerd Site: Quando percebeu sua vocação para o desenho e como transformou isso em uma ferramenta de trabalho?

Maurício Ricardo: Já nasci amando desenhar. Aos quatro anos, meu traço era bem seguro e fui aperfeiçoando-o copiando desenhos dos gibis e da televisão. Aos 17, estreei profissionalmente como chargista de política e autor de uma tirinha em um jornal local de Uberlândia, cidade onde vivo desde os oito anos.

NS: A charge seria um caminho menos convencional do que outras possibilidades para quem desenha? Sua família queria que você seguisse um outro caminho, ou você teve apoio?

MR: Bem, charge nunca foi um mercado dos mais promissores. Hoje, viver de conteúdo online está bastante difícil. É muita produção pra poucos anúncios. E antes da internet então, só tinha bom salário quem trabalhava para grandes jornais nas capitais, fazendo fama. É o caso do Laerte, do Chico Caruso e do falecido Glauco, entre outros. Quando se fala em animação, então, pior ainda. Meu projeto de internet só foi possível graças ao surgimento da animação digital, que queima muitas etapas, e minha facilidade com a música e vozes. Minha família sempre me apoiou, até porque minha mãe foi radialista e meu pai jornalista, mas foi uma trajetória difícil. Como o salário era baixo, segui outras funções e me tornei diretor de jornal antes de largar tudo e investir na internet.

NS: Dentro das possibilidades do desenho artístico, como encontrou seu caminho e por que escolheu a charge?

MR: Foi muito espontâneo. Ainda criança, fazia gibis inteiros, com roteiros, histórias completas e periodicidade. Eram feitos em caneta Bic preta e só tinham um exemplar, o original (risos). Mas cheguei a fazer muito freelance na publicidade.

NS: São quase 40 anos atuando como chargista, certo? Como foi a transição da charge tradicional impressa e o mundo digital? Quais foram os principais desafios?

MR: O maior desafio foi transferir a habilidade de desenhar, da caneta para a mesa digital. Hoje é possível desenhar no próprio tablet, que tem tela sensível, mas antes a gente simulava o risco na mesinha e acompanhava o resultado olhando pro monitor de vídeo. Até hoje uso esse método, porque me adaptei. Mas é bem antinatural: nossa tendência é olharmos pra própria mão e para o papel quando desenhamos.

NS: Depois da mudança digital anos 2000, você se viu às voltas com a transposição do seu conteúdo para as redes sociais, certo? Fora a mudança de canal, houve mudanças de conteúdo? Como tem sido essa mudança?

MR: As mudanças têm sido naturais e instintivas. Eu praticamente inventei o tipo de conteúdo que produzo. Na época em que lancei o site, a gente tinha o Humortadela como maior site de humor, mas eles só começaram a fazer animações depois que as minhas bombaram. Havia também uma experiência com animações no portal Terra, envolvendo cartunistas famosos com o Laerte, mas ele desenhava e outra pessoa animava, sem vozes. O primeiro cara a ter charges autorais, desenhando, fazendo vozes e, o mais difícil, produzindo diariamente, fui eu. A qualidade teve que aumentar à medida em que a internet se tornava mais e mais multimídia, e a duração dos desenhos também. Isso me fez montar uma equipe, enxuta, mas bastante competente. Permanecer relevante, 18 anos depois, me enche de orgulho. Mas continua sendo uma luta. É matar um leão por dia!

NS: Personagens como Tobby e Espinha e Fimose fizeram muito sucesso na primeira metade dos anos 2000. Como tem sido a recepção do novo público aos personagens?

MR: Tem sido surpreendentemente positiva! Estreei oficialmente no YouTube em março do ano passado. Nesse pouco mais de um ano, já são mais de 700 mil inscritos e um número de visualizações que flutua entre 15 e 22 milhões. Me chamou a atenção o sucesso do Lesado, que era personagem secundário na série Espinha e Fimose. Ele bomba no YouTube. E me alegra também o sucesso de toda a série Só Levando, que é a maior audiência do canal: tem episódios com 7 milhões de views. Já o Tobby exige um pouco mais de engajamento, porque depende muito do “entrevistado”. Ele pode falar de cinema, política, celebridades etc. O público flutua de acordo com o tema da semana.

NS: Qual sua entrevista favorita do Tobby e por quê?

MR: Toda a série inspirada no Capitão Nascimento foi um marco, por volta de 2007, se não me engano. Das recentes, destaco Ricky e Morty. Acho que o roteiro e as vozes ficaram bem legais e ainda deu pra fazer um crossover com o Lesado.

NS: Você usa esses personagens e os temas de suas charges para fomentar temas que considera importantes? Se sim, pode citar uma ação que considere mais relevante?

MR: Sim, mas não obrigatoriamente. Normalmente, esses personagens servem justamente pra não deixar o site e o canal sérios demais. Mas dependendo do entrevistado do Tobby ou especialmente no mundo fictício de Só Levando, que se passa numa favela e posso levantar várias questões sociais relevantes.

NS: Como foi trabalhar com o BBB? Você é (ou era) espectador do programa?

MR: Sim, acompanhei assiduamente durante as temporadas 4 a 16, das quais participei. Atualmente, vejo mais a distância, até porque na época em que atuava no programa era uma verdadeira imersão. Até hoje me divirto muito com o BBB, mas não me cobro ver todo dia. As redes sociais, especialmente o Twitter, ajudam a me manter informado.

 

NS: Por que deixou o reality? Fez outros trabalhos na Globo?

MR: Minha saída do BBB foi uma iniciativa da direção do programa, mas entendi perfeitamente. O formato começava a apresentar desgastes. Pedro Bial deixaria o programa, o visual seria repaginado. Minhas charges lá seriam um elo com o passado e eu mesmo sentia um certo desgaste. Continuo contratado da Globo e produzo com certa frequência para o Mais Você, ilustrando reportagens e quadros.

 

NS: Você faz comentários políticos e críticas sociais fora de suas charges também, em suas redes. Por que faz essa opção?

MR: Na verdade, eu já fazia isso antes de todo mundo virar youtuber (risos). Meu site tinha a sessão E-mails Comentados e eu sempre opinei seriamente sobre política e cotidiano, além de ter feito vários do que eu chamava E-mails Comentados em Vídeo, que nada mais eram do que uma versão primitiva dos vlogs. Talvez eu nem fizesse comentários em vídeo hoje se não sentisse uma necessidade como artista e cidadão. O mundo, e especialmente o Brasil, está polarizado demais por causa do duopólio Facebook/Google (YouTube). Os algoritmos empurram as pessoas para o extremismo. Acho importante tentar fazer uma ponte e mostrar que toda forma de radicalização é burra e nociva.

NS: Como avalia o cenário político, econômico e social pelo qual passa o nosso país? Vê possibilidades de mudança em médio prazo?

MR: Neste momento, não. A crise está aí, em toda a sua força. Está difícil pra todo mundo manter seu emprego, seu negócio. E o cenário para a eleição presidencial é broxante. Quem não fecha com Lula ou Bolsonaro – meu caso – continua à espera de um milagre. Espero que apareça um bom nome.

NS: Acha que é papel do humor suscitar debates e provocar reflexões nas pessoas?

MR: Sim, mas é um papel secundário. O principal é entreter. Tudo depende do estilo e do objetivo de quem cria. Como minha escola é a charge jornalística, fica difícil pra mim não colocar uma pitada de crítica social ou política no meu trabalho. Mas todo mundo adora o bom e velho besteirol. Não me privo de fazer quando tenho uma ideia boba, mas divertida.

NS: Como é seu dia a dia de trabalho? Acho que todo mundo tem essa curiosidade. Você trabalha cercado por uma equipe diariamente?

MR: Até o ano passado eu tinha ao meu lado uma equipe de três animadores e desenhistas, o Fernando Duarte, o Toni da Hora e o Fred. Este ano resolvi desmontar a estrutura física. Eles continuam colaborando comigo via home office e todos tem outras funções e outros clientes. No resultado final mudou pouco. Como sempre escrevi sozinho os roteiros e gravo todas as vozes, essa colaboração à distância funciona muito bem.

NS:  Quando não está desenhando, o que você faz? Tem outra profissão? E quais são os seus hobbies?

MR: Meu principal hobby é a música. Toco baixo e canto rock clássico em várias bandas e projetos em Uberlândia. Eu e minha esposa temos também uma escola de programação e robótica para crianças e adolescentes, mas a gestão é toda por conta dela. Por enquanto ainda tenho a honra de viver da minha arte. Mas não sei até quando.

NS: O que responde para quem te pede dicas para trabalhar com desenho e, em especial, com a charge?

MR: Não comece pensando em dinheiro. Tenha um plano B. Quem sabe até um outro ganha-pão. Todo o mercado de mídia está imerso numa crise que vai além da financeira, é existencial. As redes sociais deram voz a todo mundo, mas só sendo muito empreendedor e tendo audiências muito altas é possível fazer disso uma boa fonte de renda. Eu diria também para ler bastante, sobre tudo. Ver muitos filmes, absorver muita informação. É das ligações entre várias referências que surge uma ideia criativa. E o que o mercado sempre valorizou, acima dos desenhos, são as ideias. Outro caminho, para quem só cria ou só desenha, mas faz um dos dois muito bem, é buscar uma oportunidade em equipes e produtoras já consolidadas. Enfim, as oportunidades estão aí. E muitas delas ainda serão criadas. Quem sabe por quem está lendo agora essa entrevista.

Escrito por Bruno Aires

Jornalista carioca que não gosta de futebol e de cerveja, Bruno aprendeu a ler com a Turma da Mônica e só gosta de assistir filmes e séries na ordem cronológica.

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