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[Entrevista] Favorita ao Oscar, nova animação da Disney é antídoto contra  onda conservadora que atinge o mundo

“É uma feliz coincidência que o filme chegue ao público logo nesse momento”, comenta Rodrigo Andreatto.

  Kaio Rodrigues    segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Em 2011, quando decidiu o tema de sua 19ª produção, a Pixar iniciou um processo intenso de pesquisas e visitas ao México. O desafio era contar uma história focada no Día de los Muertos, mantendo ao máximo o respeito com a tradicional festa do país. Essa foi também uma das preocupações de Rodrigo Andreatto, responsável por dirigir a versão brasileira do filme.

“Meu trabalho é não aparecer. Quanto mais fiel eu for à obra original, melhor será a minha atuação”, explica o diretor, que chegou a contar com o suporte de mexicanos na gravação das vozes. “Havia muitas frases ditas em espanhol, e tínhamos que ter muito cuidado, porque a fala diz muito sobre a cultura deles.”

Com mais de 18 anos de experiência na dublagem, Rodrigo traz no currículo sucessos como Moana – Um Mar de Aventuras e Bela e a Fera. Mas ele ainda se surpreende: “Para mim, a qualidade e a perfeição dos filmes da Disney acompanham as inovações tecnológicas. Há uma cena em que o Miguel assiste ao seu ídolo através de uma TV antiga, e é possível ver o reflexo dela em sua pupila, como se fossem olhos reais. É inacreditável!”

Rodrigo Andreatto // Reprodução: Internet

A arte como profissão

Miguel é o protagonista do longa. Nascido em uma família de sapateiros avessos à música, ele sonha em ser cantor, tal como seu ídolo de infância. Para isso, precisa pedir a benção de seus antepassados, gerando uma extraordinária reunião familiar entre vivos e mortos.

E se música é o tema do filme, é também a paixão de Filipe Bragança. Depois de dar vida ao jovem Christian Figueiredo em Eu Fico Loko, o astro de 16 anos emprestou a voz para uma das canções mais marcantes do filme: Lembre de mim.

“O meu caso foi bem mais simples que o do Miguel. Me sinto privilegiado, porque  tive muito apoio em casa; meu pai é bailarino e minha mãe é atriz. Eles são minha inspiração”, comenta o ator, que no ano passado ganhou o prêmio Bibi Ferreira de revelação pelo musical Os Miseráveis.

Cultura latina

Ambos ator e diretor concordam que Viva – A Vida é Uma Festa representa um alento em meio à onda de intolerância instaurada nos Estados Unidos desde a posse do presidente Donald Trump. “O público de todo o mundo vê um outro lado do México; um que talvez estivesse escondido ou malvisto depois de tanto preconceito”, diz Filipe.“Há muitos mexicanos morando nos Estados Unidos. E como o filme começou a ser produzido há muito tempo, é uma feliz coincidência que chegue ao público logo nesse momento”, acrescenta o Rodrigo.

Filipe Bragança // Reprodução: Internet

Outras culturas

E haveria uma tendência da Disney em fugir das representações puramente americanizadas? Rodrigo Andreatto lembra que Moana fez o mesmo ao retratar as histórias da Oceania. “Eu acredito que seja uma tentativa de demonstrar atenção a todos os povos, e não apenas ao que se entende como americanismo. Abranger todas as culturas e manifestações”, considera o diretor de dublagem.

E haveria espaço para a cultura brasileira nos estúdios Disney? Rodrigo se anima com a ideia, citando o sucesso de Rio (Blue Sky Studios). “Eu vejo o país sendo mencionado em produções estrangeiras. Não faz muito tempo, eu estava vendo uma série americana, e um dos personagens citou os protestos contra o presidente do Brasil. São menções pequenas, mas que já nos permitem sonhar com um projeto maior.”

Oscar

Longe de sonho, a indicação de Viva ao Oscar já é dada como certa. A produção conquistou o prêmio de melhor animação na 75º Globo de Ouro, desbancando sucessos como O Touro Ferdinando e O Poderoso Chefinho. Rodrigo Andreatto garante que isso não interfere no seu trabalho como diretor: “Trabalhamos da mesma forma, independentemente se o filme tem ou não chance de ser indicado”.

Para Filipe, que acompanha de perto as premiações, a possível indicação é “mais que merecida”. Viva foi seu primeiro contato com dublagem, mas serviu para despertar seu interesse pela profissão. Definido pela revista Veja como a nova voz dos musicais paulistas, ele tem quase um milhão de seguidores no Instagram, mas acredita que o mais importante é tocar corações: “Os atores que eu mais admiro sequer possuem rede social. Eu falo com as pessoas, dou atenção, mas não fico louco por isso”, brinca. “Os números, o sucesso e a fama são só consequências. Meu foco é no trabalho.”

Dubladores famosos

Rodrigo concorda, e não vê com maus olhos que astros de outras áreas trabalhem nos estúdios de dublagem. Ele cita Carros 3, onde jornalistas esportivos foram convidados a dublar personagens de profissão semelhante: “A presença desses artistas ajuda muito na divulgação do filme. Conseguimos tirar um resultado bom dessas participações, como no caso do cantor Rogério Flausino, que fez uma rápida participação em Viva”.

Sobre a mudança do nome da animação na versão brasileira, o diretor de dublagem diz não ter participado. Mas esclarece que a alteração nada teve a ver com os possíveis trocadilhos com o nome original: “Coco em espanhol é um nome carinhoso para Socorro, bisavó do protagonista. Mas para a gente, isso não faz sentido. Então foi escolhido um título mais interessante do ponto de vista do marketing. Isso não tira a beleza do filme.”

Beleza e emoção! “Levem lenços para enxugar as lágrimas, e vão aos cinemas com o coração aberto para admirar essa história que é linda e merece ser assistida”, aconselha Filipe. “Viva não é só um filme sobre a cultura mexicana. É uma festa dos valores humanos e das relações familiares”, completa Rodrigo.

Dirigido por  Lee Unkrich (Toy Story e Procurando Nemo) e produzido por Darla Anderson (Vida de Inseto, Monstros S.A.), Viva – A vida é uma festa estreou em 4 de janeiro no Brasil. A versão dublada conta ainda com as vozes de Arthur Salerno, Leandro Luna e Adriana Quadros.


Kaio Rodrigues

Kaio Rodrigues

Kaio Rodrigues viaja pelos livros desde os 11 anos. A paixão pela literatura o tornou editor do Potterish e colunista do jornal impresso Diário da Poesia, além de possibilitar a colaboração em importantes portais literários do Brasil. Atualmente, divide-se entre a faculdade de Letras da UERJ e o roteiro de seu primeiro romance policial.

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