Críticas

Crítica | “A Guerra dos Sexos” é um filme divertido e importante, brilhantemente liderado por Emma Stone

Um filme sobre a batalha por direitos iguais entre homens e mulheres, uma premissa muito popular para os dias de hoje. É com a temática de igualdade entre gêneros, que “A Guerra dos Sexos” aborda a história de Billie Jean King (Emma Stone), uma das maiores tenistas que já passaram pelo circuito feminino de tênis, […]

  Luis Borgia    quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Um filme sobre a batalha por direitos iguais entre homens e mulheres, uma premissa muito popular para os dias de hoje. É com a temática de igualdade entre gêneros, que “A Guerra dos Sexos” aborda a história de Billie Jean King (Emma Stone), uma das maiores tenistas que já passaram pelo circuito feminino de tênis, e uma figura que brigou para que as mulheres pudessem receber o mesmo pagamento que homens em premiações de torneios. Liderando então, um boicote em 1973, onde se reuniram grandes nomes da WTA da época, para criarem seu próprio circuito.

Em meio a tudo isso, surge a figura de Bobby Riggs (Steve Carell), um já aposentado tenista, pertencente ao Hall da Fama, que sustentava argumentos de que os homens são superiores as mulheres. Pelo menos, era isso que ele transparecia ao público, como o grande ‘showman’ que era, sempre se aproveitando de situações para ganhar dinheiro e sustentar seus vícios.

A grande questão que esse filme traz, é se abordar esta história pelo universo do tênis, tenha sido a melhor maneira de trazer esta temática à tona. Se a intenção era fazer um filme auto biográfico de Billie Jean King, este filme não se foca em um único personagem para realizar tal, e se a intenção era fazer tanto uma homenagem como um filme sobre direitos iguais, entramos no ponto do universo escolhido.

O meio do tênis sempre foi marcado por discussões sobre a diferença de premiações do circuito masculino e feminino, e continua sendo até hoje, mostrando que apesar de muitos esforços durante a história do esporte, não é algo que realmente mudou por completo. Sendo assim, para aqueles que não acompanham este meio, que não seguem o esporte, as informações trazidas no filme talvez sejam suficientes, mas para aqueles que conhecem este universo, são rasas demais.

Não que isso chegue a ser um problema grave do filme, afinal, ele tem a proposta de afetar o maior público possível, mas há de se considerar este fato. Simon Beaufoy, roteirista do longa, tem outros belos trabalhos como em Quem Quer ser um Milionário, e em “Guerra dos Sexos”, seus acertos são notáveis, mas seus erros, incomodos. Ele estrutura bem o roteiro, consegue introduzir e construir aquilo que quer para seus personagens muito bem, mas se utiliza de personagens ‘gancho’, para alavancar camadas de seus personagens principais, e estes ‘ganchos’, acabam sobrando em meio a toda a estória, não tendo suas individualidades desenvolvidas. Algo que ocorre com a amante de Billie Jean, Marilyn (Andrea Riseborough), e com o filho de Bobby Riggs, Larry (Lewis Pullman).

Mesmo assim, a narrativa consegue transitar bem entre as tramas pessoais dos dois protagonistas e a trama profissional central, não nos causando estranhamento, e não tomando um posicionamento sobre a real índole de Riggs, não o fazendo um vilão, só um louco viciado por dinheiro. Os alívios cômicos que se dão em alguns momentos, principalmente com Steve Carell, funcionam bem e trazem leveza ao ritmo da estória. Porém, o terceiro ato deixa a desejar, tanto em emoção, quanto em conclusão. Mesmo adaptando um ocorrido real, a trama não entrega um final tão interessante e recompensador quanto o restante do filme antecipava.

A direção, ficou por conta do casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, que além de dirigirem diversos clipes musicais durante suas carreiras, também realizaram filmes como o excelente Pequena Miss Sunshine e o bom Ruby Sparks. A direção dos dois é muito fluida em “Guerra dos Sexos”, eles sabem trabalhar os momentos dramáticos e os momentos cômicos muito bem, e dão um ótimo ritmo para todo o filme. O trabalho em conjunto com a Direção de Fotografia de Linus Sandgren é muito interessante, com um belo retrato dos anos 70 pela iluminação dos ambientes, contando claro com o ótimo trabalho do Design de Produção.

O ponto mais delicado que os diretores tinham para este projeto, era como eles filmariam as cenas das partidas de tênis. A opção foi pelo uso de uma câmera de televisão, como se estivessemos assistindo a partida pela transmissão de um canal, algo que é muito interessante e raro de vermos, sendo uma das melhores reconstituições de partidas de tênis feitas até hoje no cinema. Porém, ao fazer esta escolha, o filme opta pelo realismo, e aí é onde mais uma vez, fãs do esporte provavelmente irão sentir um pequeno incomodo. Pois a velocidade das trocas de bola entre jogadores não é tão exata quanto a exercida no circuito profissional, algo que se fosse filmado de forma mais ‘cinematográfica’, por assim dizer, com uso de elipses, poderia ser disfarçado.

Por fim, vale a pena ressaltarmos as atuações, pois são um dos pontos mais fortes da produção. Emma Stone, realmente incorporou Billie Jean King e se mostra mais uma vez excelente, passando tudo que seu personagem complexo precisava, e valendo, provavelmente, mais uma indicação ao Oscar em 2018. Steve Carell, também um velho conhecido da Academia, está ótimo, consegue se sair muito bem no aspecto caricato e cômico da figura de Bobby Riggs, e ao mesmo tempo, passar o lado mais profundo e dramático dele. Num restante, as atuações de plano secundário estão todas boas, com um destaque maior provavelmente para Sarah Silverman como a agente das tenistas, sendo incrivelmente divertida e carismática, e Austin Stowell, que tem um papel muito sensível e difícil, como o marido de Billie Jean, Larry King, e o executa perfeitamente.


Luis Borgia

Luis Borgia

Colaborador, cineasta formado. Crítico de cinema para o site. Apaixonado por café, filmes de terror e comédia.

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