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Crítica | Blade Runner 2049 tem uma trama interessante mas não supera seu antecessor

Blade Runner: 2049 estreia nos cinemas brasileiros nessa quinta-feira!

  Luis Borgia    quarta-feira, 04 de outubro de 2017

Denis Villeneuve é um dos diretores mais badalados da atualidade, com seus últimos filmes sendo um sucesso de crítica, principalmente Sicario: Terra de Ninguém e A Chegada. Somado a isso, temos a sequência de um dos filmes de ficção científica mais adorados de todos os tempos, e assim se foi criada uma expectativa enorme de todo cinéfilo para a chegada de “Blade Runner 2049”, um novo capítulo do universo construído por Ridley Scott 35 anos atrás.

Não esperem uma tentativa de franquia em “2049”, ou sequer uma continuidade exata do primeiro filme, este longa é uma obra própria, um filme que se fecha em si, apenas se apropriando de pontas deixadas por seu antecessor. Aqui, acompanhamos a trajetória do Agente K, um policial replicante na caça de antigos modelos da Tyrell Corporation, quando encontra evidências de que uma replicante, Rachel, teria dado a luz a uma criança anos atrás, algo que desperta o interesse de uma nova corporação dominante na Terra, liderada por Dr.Wallace.

O roteiro é assinado por Hampton Fancher, autor do primeiro filme, e Michael Green, e é onde o longa traz mais controversas. O desenvolvimento dos personagens é bem feito, o personagem vivido por Ryan Gosling, Agente K, é quem conduz toda a estória, e apresenta diversas camadas, das mais filosóficas em meio ao universo que vive, até as mais pessoais e sensíveis. Com ele, aparecem as figuras de Joi (Ana de Armas), sua companheira holográfica, Luv (Sylvia Hoeks), a verdadeira ação antagonista e o já conhecido Deckard (Harrison Ford). Todos são trabalhados da maneira correta, de forma funcional mas sem serem unidimensionais, preenchendo a estória organicamente.

O grande questionamento sobre o roteiro fica em dois pontos. O primeiro é sobre a explicação repetitiva de um determinado ponto de virada, alongando uma descoberta sobre o personagem de K por cerca de meia hora, como se subestimasse a inteligência do espectador, algo que já vimos em filmes do diretor antes, como A Chegada, mas aqui é feito de forma ainda mais gritante. Justo este aspecto, deixar as peças do quebra-cabeça para seu público montar, que era uma das maiores qualidades do filme de 1982, não é realizada em “2049”. Algo que poderia ter sido feito tranquilamente, devido ao ritmo vagaroso que o longa apresenta, o qual abordarei mais a fundo ao falar sobre Villeneuve. O segundo ponto negativo, é a falta de tempo em cena do verdadeiro “vilão”, Niander Wallace, interpretado por Jared Leto. Mal o vemos em cena durante as 2 horas e 44 minutos de filme, o que acaba fazendo falta para entendermos o outro lado dos acontecimentos.

Denis Villeneuve me agradou na maioria de seus filmes, mostrando muita técnica e muita inteligência na construção das simbologias e metáforas das histórias que contava. Porém, infelizmente, não posso dizer que seu trabalho aqui atinge o mais alto nível que já o vimos executar. Apesar de ter um belo posicionamento de câmera e uma direção de atores impecável, realmente impecável, sua grande falha está em não identificar os erros do roteiro, e em como ele optou por editar (montar) “Blade Runner 2049”.

O ritmo do filme é difícil de aguentar em muitos momentos, onde sua opção pela contemplação total do que está sendo apresentado em cena, nem sempre se justifica. Pois apesar de entender que ele queira que possamos sentir o clima apocalíptico e desesperançoso daquela civilização, é algo que acaba se tornando exagerado, criando sequências com “tempo morto”. Conseguiríamos absorver toda essa sensação em menos tempo, pelos próprios personagens, pelos próprios acontecimentos da história. Em compensação, o ato final ganha força, terminando o longa de forma impactante e emocional, deixando uma boa sensação ao sair da sala de cinema.

Todas as atuações estão em um nível altíssimo, entregando tudo de si, segurando toda a carga dramática extremamente delicada que o filme tem, apesar do ambiente hostil em que vivem. Ryan Gosling realmente mostra porquê tem sido lembrado constantemente pela Academia, e conduz a narrativa perfeitamente. Tanto Ana de Armas como Joi, quanto Sylvia Hoeks como Luv, surpreendem, entregando dois personagens opostos mas muito carismáticos e cativantes. Robin Wright executa o papel de chefe do departamento de polícia sem muitos esforços, e como esperado, não deixa a desejar. Harrison Ford demostra novamente, mesmo que em pouco tempo, toda a sua qualidade como ator, com um tipo de performance que não vemos dele há bons anos. Jared Leto, infelizmente, não ganha o tempo de tela que precisava, mas quando aparece consegue mostrar toda a excentricidade de seu personagem.

Por último, o maior destaque desta produção vai para a Direção de Fotografia feita por Roger Deakins, que deve receber sua 13º indicação ao Oscar por este trabalho, e o Design de Produção deslumbrante de Dennis Gassner, que por sua vez, buscará levar uma segunda estatueta para casa, já colecionando 5 indicações.


Luis Borgia

Luis Borgia

Colaborador, cineasta formado. Crítico de cinema para o site. Apaixonado por café, filmes de terror e comédia.

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