Críticas

Crítica | “Mãe!” é a maior obra expressionista de Darren Aronofsky

“Uma grande alegoria”, é como o diretor de “Mãe!”, Darren Aronofsky, define sua mais recente produção. Tomem suas palavras como as minhas nesta crítica. No filme, acompanhamos a trajetória de um casal em crise, interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem. Lawrence está finalizando as reformas desta casa que foi incendiada no passado, enquanto estranhos, […]

  Luis Borgia    sexta-feira, 22 de setembro de 2017

“Uma grande alegoria”, é como o diretor de “Mãe!”, Darren Aronofsky, define sua mais recente produção. Tomem suas palavras como as minhas nesta crítica. No filme, acompanhamos a trajetória de um casal em crise, interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem. Lawrence está finalizando as reformas desta casa que foi incendiada no passado, enquanto estranhos, permitidos pelo personagem de Bardem, começam a adentrar o local, ocasionando incomodo na mulher.

Esta é a sinopse que posso dar para o longa, e que o resume de maneira objetiva sem entregar os acontecimentos.

Aronofsky escreveu este roteiro em apenas 5 dias, como uma carta aberta de ódio ao mundo, e então mostrou para seus produtores e para Jennifer Lawrence. E como ele mesmo disse, se você têm J.Lawrence, você tem um filme. Mas apesar do curto período de escrita do roteiro, D.Aronofsky tentou trabalhar mais em cima daquilo que havia saído de dentro dele em menos de uma semana, porém, todo o brilho e diferencial daquela obra estava se dissipando, o que fez com que ele retomasse seu roteiro inicial.

Por quê estou dizendo isto? Porque esta análise precisa começar pelo roteiro. Com um ritmo lento, chegando a ser agoniante, mas de maneira proposital, o longa pode ser categorizado como um thriller psicológico, pois executa aquilo que Aronofsky já fez em outras ocasiões (por exemplo Cisne Negro), misturar melodrama com terror psicológico. Em sua superfície, é uma estória bizarra de um casal em crise, onde a mulher não se sente ouvida e considerada, e é suprimida pela relação, se degradando até não suportar mais. Em seu espírito, é uma alegoria gigantesca, que tem como epicentro a casa onde eles vivem, que vai se completando com os acontecimentos e com os personagens que entram em cena posteriormente.

O roteiro pode ser interpretado de diversas maneiras, desde a mais rasa e comum, até a mais profunda e mitológica, e esta é a beleza de “Mãe!”. Um filme que a cada vez que você assistir, você poderá aprender mais, ver mais, e tomar mais consciência de todas as simbologias colocadas pelo diretor. O caráter autoral é visível, as ideias pessoais do homem por trás da obra também podem ser notadas, mas ele não se propõe a responder ou dar soluções para os problemas apresentados, até porquê ele não tem essas respostas, ninguém têm. Se esta última frase ficou confusa, vocês entenderão quando assistirem ao filme.

Quanto a direção de Aronofsky, ela é perfeita. A maior parte da metragem se passa com planos fechados no rosto de Jennifer Lawrence, por seu ombro ou por uma câmera subjetiva, sendo uma maneira intrigante e inquietante de como conduzir uma estória em primeira pessoa. A montagem(Andrew Weisblum) e a fotografia(Matthew Libatique) se juntam a esta decupagem e nos trazem sempre, de forma precisa, o necessário para compreender o conceito por trás do que está acontecendo. Os símbolos colocados em cena vem sempre nos momentos corretos, de maneira crescente, nos ajudando a entender as relações postas em jogo. É por meio destes, que como em outros de seus trabalhos, ele mostra sua essência expressionista, ao externalizar as emoções e sentimentos da protagonista na tela. Seu trabalho com Efeitos Visuais, Maquiagem e Design de Som é estupendo, não deixando a desejar em nenhum momento e nos trazendo todo o horror das situações.

Por último, as atuações são conduzidas de maneira impressionante. É claro que a escolha do elenco foi bem feita, e que são todos atores sensacionais, mas sempre é um trabalho em conjunto com o diretor. Jennifer Lawrence pode não estar incrível como Natalie Portman em Cisne Negro ou como Ellen Burstyn em Réquiem para um Sonho, mas entrega o necessário dentro de um papel absurdamente complicado e físico. Entre os coadjuvantes, todos estão perfeitos e representam com exatidão suas alegorias, principalmente Ed Harris, Kristen Wiig Michelle Pfeiffer. Como destaque final, Javier Bardem é o que causa a mais impactante impressão, por reagir de maneira surreal a todas as situações, por saber representar exatamente aquilo que a estória precisa em todos os momentos. É um papel que eu não consigo imaginar mais nenhum ator fazendo depois de assistir a Bardem.

SPOILERS (irei dar algumas instruções de como interpretar as alegorias de Mãe! para aqueles que quiserem. Quem não quiser, é só descer a página e ver a avaliação final).

A alegoria que Aronofsky deixou claro que tinha ao escrever esta história, era de que Jennifer Lawrence represente a Terra, ou a “Mãe Natureza”, e de que Javier Bardem represente Deus, ou o “Criador da Fé”. Isso se nota pelas referências bíblicas tanto em situações que ocorrem, como nos próprios personagens. Quem acompanha a trajetória do diretor, sabe que ele é ambientalista, que viaja o mundo pela causa, e também sabe o quanto o tema “religião” é abordado em seu trabalhos.

Sua intenção era criticar a maneira com que tratamos nossa própria casa, a Terra, e em como a ação religiosa, apesar dos ótimos princípios, não pode fazer nada a respeito disso. Mas não ache que Aronofsky está sendo pejorativo com tal figura bíblica, ele está colocando o ser humano em xeque, nos mostrando que depende de nós mesmos para mudar tudo que está acontecendo em nosso planeta.

Ao mesmo tempo, não se limitando a questão ambiental, ele põe a índole humana em questão. Como deturpamos tudo aquilo que está passível de interpretação, como nossa essência é destrutiva, como não nos responsabilizamos pelos nossos atos diariamente. E é exatamente assim que ele não desrespeita a figura religiosa, pois ele mostra as boas intenções que o então Deus(Javier Bardem) têm, e como a Mãe(Jennifer Lawrence), reconhece isso.

É claro que há muitas outras interpretações e coisas a serem analisadas no filme, mas este é um início, uma base daquilo que Aronofsky gostaria que fosse interpretado. Seja livre e crie sua própria visão de Mãe!, simplesmente reaja, de forma negativa ou positiva, pois essa era a intenção do autor, fazer as pessoas questionarem e acima de tudo pensarem.


Luis Borgia

Luis Borgia

Colaborador, cineasta formado. Crítico de cinema para o site. Apaixonado por café, filmes de terror e comédia.

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