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13 Motivos para Não Ver 13 Reasons Why

A intenção foi boa. Infelizmente, o bom ficou só na intenção.

  Gaby Nunes    segunda-feira, 10 de abril de 2017

Enquanto todos idolatram 13 Reasons Why, nós separamos uma lista com 13 motivos para você NÃO assistir a série. Não é implicância ou marketing reverso, é só um outro lado da moeda que as pessoas precisam ver.

Se depois disso você ainda achar que a série merece ser vista, vai lá, porque a gente também assistiu e não estamos aqui para dizer o que você deve ou não assistir.

[ATENÇÃO PODE CONTER SPOILERS]

  1. O Desleixo da Produção

Não me levem a mal, a série até que começa bem, porém, rapidamente você nota a falta de cuidado com a maquiagem/figurino dos personagens. Enquanto eu assistia os 13 episódios, não sabia o que me irritava mais: a demora pro Clay ouvir todas as benditas fitas ou o machucado na testa dele que não sarava de jeito nenhum.

Em compensação, o Alex toma uma fortíssima surra no meio da rua, fica alguns minutos em cena com o olho inchado mais falso e cheio de sombra roxa que eu já vi na vida e logo logo já está bem de novo. Muito, muito ruim.

E, claro, não posso deixar de mencionar a ridícula peruca de última categoria usada pela Katherine Langford no seu papel de Hannah. Acho que não precisa ser um gênio pra descobrir que cabelo nenhum é daquele jeito.

  1. Os Clichês

Sinto muito, galere, mas 13 Reasons não é essa sétima maravilha, não. Pra quem estudou um pouco de roteiro, bem mínimo mesmo, ou só pra quem presta um pouco mais de atenção, algumas coisas são bem óbvias e bem típicas de qualquer filme/série hollywoodiana.

Um exemplo disso? O Tony. O Tony nada mais é que o Guia (ou Confidente) do nosso Herói. Apesar de termos uma leve noção dos problemas da vida dele, o propósito real de Tony na história é, afinal, dar uma mão pro Clay o tempo todo. Isso fica óbvio desde o primeiro episódio, e só vai piorando, porque o cara consegue magicamente adivinhar onde o Clay está a qualquer momento.

A série até tenta dar uma explicação pra essa atitude, mas é bem fraca, e no fim não explica como o Tony sempre sabe onde achar o Clay, por exemplo. Previsível e clichê.

  1. Todo Mundo Ama o Clay

Esse garoto é feito de chocolate, por acaso? Apesar de ser o loser da escola, o solitário, nerd perdido, incapaz de manter uma conversa com uma garota, Clay ganha o coração de não uma, não duas, mas três (TRÊS!!) garotas na série.

Vamos encarar a realidade aqui, na vida real o Clay seria um verdadeiro fracasso com mulheres, e não digo só no sentido que ele não saberia como se relacionar com elas, não, não. Ele não teria uma única garota interessada nele. Afinal, como se apaixonar por alguém que você não conhece, que sempre fica quieto num canto escondido do mundo? Impossível.

A Hannah eu até entendo, a Skyie eu relevo, agora, a cheerleader Sheri?! Não. Não dá pra engolir.

  1. Todo Mundo Ama o Clay 2.0

Eu compreendo que o Clay era tutor do Jeff e que, portanto, os dois criaram um certo laço, desenvolveram uma amizade. Tá. Ok. Eu até engoliria essa história se ela tivesse a mínima chance de acontecer na vida real, mas, novamente, vamos encarar a realidade: Jeff e Clay nunca seriam amigos.

Qual a probabilidade de existir um atleta popular, bonito e talentoso numa escola e ele, além de tudo isso, ser muito gentil com o maior loser de todos (tirando o Tyler)? É conveniente para a narrativa que o Jeff exista, porque ele que acaba servindo como o nosso segundo Guia e empurrando o Clay pros braços da Hannah.

Conveniente. Óbvio. Mal feito. 

  1. Muito de Nada e Pouco de Tudo

A série tenta abordar inúmeros assuntos tensos, de bullying a dificuldade de assumir sua sexualidade, de pais ausentes a drogas e, os piores, estupro e suicídio. E como todo conteúdo de ficção que tenta falar de tudo, a série acaba servindo mais para chocar do que para conscientizar e esse, pra mim, é um de seus maiores pecados (mas já chego lá).

Todos assuntos tratados em 13 Reasons são extremamente delicados, são gatilhos emocionais para muitas pessoas e, se não elaborados com extremo cuidado, podem causar o efeito contrário do que se espera, prejudicar em vez de ajudar.

Esse, pra mim, é o caso aqui. Essa tentativa megalomaníaca de abranger todos os tópicos tensos do universo falha miseravelmente, porque tudo fica muito superficial. O próprio caso do Tony, como já mencionei, pareceu mais um jeito de “acrescentar um drama” do que realmente lidar com uma questão importante para muitos adolescentes. E não estou falando da sexualidade dele, e sim do descaso da polícia nos bairros onde vivem as “minorias” (latinos, pobres, etc.). Já tinham esquecido disso, né?  Pois é.

No fim, pouco é resolvido e a sensação que fica é que o mundo é um lixo e não tem saída pra muitos dos problemas expostos. Pra uma série que veio conscientizar as pessoas do que elas podem fazer (ou não) pra evitar que mais “Hannahs” tenham o mesmo destino, essa não deveria ser a sensação final.

  1. A Fita da Jess

Eu estou até agora tentando entender porque a Jessica está em uma das 13 fitas. Sim, eu sei o que a Hannah disse, mas vamos todos concordar que a Jess mais do que pagou por qualquer pecado que ela possa ter cometido? A atitude dela foi infantil e impensada, porém, considerando o que a Hannah testemunha na festa na casa da amiga, fica difícil entender porque ela ainda merece ser culpada de qualquer coisa.

Ela foi uma adolescente boba que tomou uma atitude errada por causa de um garoto, mas isso, pra mim, deveria ser perdoado depois da tal festa. A Jessica já está lidando com o trauma de um estupro, e aí ela é responsabilizada pelo suicídio de uma amiga. Não. Só não. 

  1. A Placa/A Fita da Sheri

Ok, tá bom, a Sheri deveria ter ligado pra polícia. Contudo, sinceramente, mesmo se ela tivesse ligado, será que ela teria conseguido impedir aquele acidente de acontecer? A Hannah levou o quê, alguns minutos pra chegar naquela loja? E foi o suficiente pro Jeff morrer. Ninguém ia substituir aquela placa ou ficar lá plantado sinalizando a noite, num final de semana, numa cidade pacata onde nada acontece.

Além disso, quem estava dirigindo o carro que se chocou contra o do Jeff era um velhinho. A que velocidade os dois estavam pra causa um impacto fatal? 100 km/h? Estavam apostando um racha? Sinceramente, foi forçado demais. Não acho que a placa teria feito a menor diferença naquele lugar, mas talvez eu pense assim porque sou de São Paulo capital, e muitas vezes nem o semáforo serve pra alguma coisa.

  1. A Forçação de Barra

E falando sobre forçar a barra, essa tal cidade do interior que deveria ser pacata vira o palco de todas as tragédias do universo, novamente, porque é conveniente para a narrativa. Contudo, isso só me faz mencionar de novo o tópico 5, muito de nada e pouco de tudo. Fica muito difícil acreditar nessa história com tanto horror acontecendo ao mesmo tempo, com tanta coisa chamando atenção e tudo sendo tão pouco explorado, tudo tão superficial.

Além disso, na tentativa de expor todos esses problemas gravíssimos, 13 Reasons desvia o foco do bullying, e diminui a importância dele, fazendo parecer que é necessário mais do que só uma “zoeira” na escola para alguém tirar a própria vida. O bullying vira, então, o gatilho para as atitudes horrendas do Bryce, por exemplo, que acredita nos boatos da Hannah “vadia” (como se ele precisasse de motivo pra ser um monstro), mas não é tanto o gatilho da Hannah, por conta das outras tragédias que acontecem.

Aposto que muitas pessoas vão continuar achando que quem se mata por causa de bullying é só uma pessoa muito “covarde” ou “fresca” que não “leva tudo muito a sério” e não sabe “entender uma brincadeira”.

  1. Suicídio-Vingança

Quem nunca imaginou aquele cara popular escrotíssimo da escola se dando muito mal? Quem nunca quis poder virar na cara de cada pessoa que causou algum tipo de sofrimento e fazê-la sentir aquela dor? A vingança é um sentimento comum ao ser humano, tema de muitos, muitos livros, porém, mais uma vez, um tema delicado que deve ser tratado com cuidado.

Em 13 Reasons Why, a vingança é plena, não mata alma e só envenena quem escuta as fitas. Todos se sentem culpado, o final da série da a entender que quem deveria sofrer as consequências de seus atos, vai, e as fitas impactam tanto os 13 personagens, que três deles pensam e/ou tentam se suicidar também. Ou seja, as fitas, como forma de vingança, funcionam.

Qual a mensagem implícita aqui então? Que a Hannah se matou, mas se vingou de todos, fez todo mundo se sentir culpado pelo mal que fizeram a ela. A morte, de forma mórbida e bizarra, deu certo. Essa é uma mensagem extremamente perigosa por motivos óbvios.

  1. Mistério Desnecessário

Sabe quando uma série é boa? Quando ela não precisa segurar uma informação e ficar te lembrando disso até o último segundo só pra você continuar assistindo. Sinceramente, não fosse a tal fita do Clay, será que você teria assistido 13 Reasons? Provavelmente não.

Se teve uma coisa em 13 Reasons que irritou todo mundo, essa coisa foi a incapacidade do Clay de simplesmente grudar a bunda numa cadeira, colocar o fone no ouvido e ouvir o que a Hannah tinha a dizer. Isso deixou a série arrastada, lenta, e, como costuma acontecer, mal desenvolvida e apressada. Num momento você está vendo o tapa que ela levou por causa da lista do Alex, no outro você vê uma cena explicita de estupro. E mais uma. E um suicídio. Três acontecimentos horríveis em 4 episódios numa séria que tem 13.

Pra que essa pressa toda? Pra chocar o telespectador. Claro. E só. 

  1. Cenas Explícitas

Eu sinceramente não tenho como expressar em palavras o quanto desaprovo de todas as cenas explícitas presentes nessa série, especialmente a do estupro da Hannah e do suicídio dela.

Para quem sofre de alguma doença mental, seja ansiedade, depressão etc., ou pra quem passou por alguma situação traumática como as exibidas na série, 13 Reasons é o prato cheio para levar a pessoa de volta aquele momento horrível que ela se esforça tanto para superar.

Fora isso, o suicídio da Hannah exibe para o mundo como se matar de forma eficiente, coisa que talvez nem todo mundo saiba, e talvez essa falta de saber já tenha salvado muita gente. Não mais.

  1. Gatilhos

Seguindo a linha de raciocínio do item 12, vamos falar um pouco de gatilhos. Já ouviram falar do efeito Werther? Então, lá em 1774, na Alemanha, o escritor Goethe escreveu o livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. O livro foi muito bem recebido pelo público, porém, muitas pessoas começaram a “imitar” um ato que ocorria na história fictícia: o suicídio do protagonista.

13 Reasons é uma série recheada de gatilhos, todos prontos para acabar com equilíbrio mental/emocional até da pessoa mais feliz do mundo, quanto mais de alguém que passou por algum evento traumático e/ou já estava considerando suicídio. Se um livro causou tamanho problema em 1774, imagina o que essa série é capaz de fazer em 2017.

“Ah, mas tem trigger warning”, você vai me dizer. Será? Até tem, nos episódios finais e no nove, mas e em todos os outros com aqueles flashes das cenas de estupro e do suicídio? Nenhum desses tinham o tal aviso, e, novamente, as cenas estavam ali somente para chocar e para te manter preso a série, sem se preocupar com a sua saúde mental, caro telespectador.

A irresponsabilidade dessa série perante seu público é enorme e não há boa intenção ou possível boa mensagem que a salvem, a meu ver.

  1. Só Pra Polemizar

“Mas, Gaby, todo mundo sabia que essa série era sobre suicídio. Era esperado. Para de reclamar”. Reclamo. Reclamo sim. Se tem uma coisa que vou fazer é reclamar. Que era esperado, sim, não dá pra negar, mas o problema aqui não é a temática, e sim como ela é abordada e exibida na TV da casa de milhões de pessoas. Novamente, se um livro foi capaz de causar tanto problema em 1774, o que dirá essa série.

Existem outros filmes e livros que tratam do tema suicídio sem a necessidade de ser tão explícito a ponto de ensinar como fazer direito. A impressão que tenho é que os produtores queriam tanto chocar o público que esqueceram de ter o mínimo de sensibilidade e pensar que alguém a beira do abismo poderia ver essa serie e perder o resto de esperança que tinha na humanidade.

E apesar de todo mundo esperar o suicídio, ninguém imaginava que a série teria não uma, mas duas cenas explícitas de estupro e, repito, apesar de ter aviso sobre isso nos episódios em que as cenas são exibidas inteiras, os flashbacks que aparecem nos outros episódios não são precedidos por aviso algum.

Dizer que “ah, mas você sabia que ia falar desse assunto” pra alguém que se abalou com a série não é, em si, uma forma de bullying? Se o produtor não teve o cuidado de apresentar essa temática de forma menos chocante e traumatizante, devemos culpar o espectador por se abalar?

A mensagem/intenção da série era: preste atenção nas pessoas, tenha cuidado com as suas palavras, seja gentil. Sabe o que aprendemos? Nada. O mundo gira e segue como antes, e agora só temos mais um motivo para discordar dos outros, culpar aqueles que sofrerem um impacto emocional assistindo 13 Reasons, dizer que eles “deviam imaginar” e “ah, deixa quieto, é só uma série”. No fim, continuamos os mesmos babacas de sempre.

Então, não. Não me venha dizer que esse seriado cumpriu o seu papel de conscientizar as pessoas, porque é mentira. Não existe o bullying da mudança, e chocar alguém até essa pessoa mudar nada mais é que isso: bullying, na esperança que a pessoa se assuste tanto que ela mude.

E, vamos lá, se a série era mesmo para prevenir que mais Hannahs surgissem no mundo, porque não há, em momento algum, nem no início nem no final do episódio, um único número, e-mail, nada de algum CVV ou hotline americana? Aonde está esse cuidado todo com as pessoas que sofrem de doenças mentais? Simples assim: esse cuidado todo nunca existiu.

A intenção foi boa. Infelizmente, o bom ficou só na intenção.


Gaby Nunes

Gaby Nunes

Gaby B. Nunes trabalha como tradutora há quase 10 anos e como produtora de conteúdo e repórter há três. Fascinada por histórias de todos os tipos, música, conteúdo audiovisual e comida, ela busca equilibrar uma montanha interminável de trabalho com suas maiores paixões (o que significa que ela acaba comendo muitos doces na frente do computador).

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