Saindo da sala de cinema após ver Assassin’s Creed, olhei para os lados para ter certeza que eu não era a única que estava com aquela cara de pura decepção. Para minha alegria (ou tristeza?), não, eu não era. Se você é fã dessa franquia (como eu) e estava ansioso para o lançamento desse filme (eu de novo), diminua muito suas expectativas.

O filme começa com um prólogo muito aleatório na Espanha, nos mostra brevemente a iniciação de Aguilar de Nerha, um assassino espanhol, e já pula para os dias atuais, onde conhecemos o nosso protagonista, Callum Lynch. Não descobrimos muito sobre ele, sua personalidade ou rotina, porque logo acontece uma tragédia, algo que define quem ele é pelos próximos 30 anos da sua vida e o levam direto para uma cela no corredor da morte.

assassinscreed3Apesar de ser oficialmente executado, Cal sobrevive, graças aos esforços da Dra. Sophia Rikkin, cientista no laboratório/prisão Abstergo onde ele se encontra. E aí que começam os buracos de enredos. Buracos? Não, desculpe, eu quis dizer crateras de enredo. Sophia, templária, por motivos óbvios, não explica muito porque ele foi salvo ou porque está preso na Abstergo, e os outros assassinos ali presentes também não. Resultado? Nosso querido Cal fica perdidaço a maior parte do filme. Sério. Chega a ser ridículo.

Pensa no protagonista sentado no refeitório esperando a comida chegar, aí vem alguém do nada, praticamente taca uma maçã na mão dele e fala “você vai entregar a maçã pra eles”. Pensa na cara de ponto de interrogação do Cal nessa hora. Isso acontece várias vezes, porque ninguém se dá ao trabalho de falar “oi, então, os templários são inimigos, nós somos assassinos e estamos aqui pra proteger a humanidade, combinado?”. Agem como se ele tivesse que adivinhar, e ele obviamente não adivinha nada.

Ele só consegue respostas quando vai para a Animus e aos poucos revive memórias de seu antepassado, Aguilar, o último assassino a ter a Maçã do Éden em mãos. Ir para aquela máquina é praticamente o mesmo que tortura pra ele, que quase morre nas primeiras tentativas de sincronização ─ isso enquanto Dra. Sophia e seu papai (Diretor Presidente da Animus) assistem. Esses momentos são os únicos que realmente contam algo de importante pra Cal sobre a guerra entre Templários e Assassinos, e sobre o legado de sua própria família, mas ainda é pouca informação.

assassinscreed1No final das contas, Cal precisa escolher um lado, uma causa para lutar, e acho que todos nós sabemos qual lado ele escolhe. O problema é que essa decisão vai contra tudo que o definia como pessoa, tudo que ele conhecia e defendia, simplesmente tudo. Não dá pra engolir a rapidez com a qual ele muda de ideia.

Aliás, falando sobre mudar de ideia, outra que adora fazer isso é a Dra. Sophia, que não sabe se quer ser vilã ou mocinha e oscila o filme todo, porém sempre com tendências para o lado dos mocinhos. Acontece que no final ela também escolhe uma causa, novamente, acho que dá para adivinhar qual, e as motivações dela são péssimas. É mais uma decisão que vai contra tudo que apresentaram da personagem. Não é crível, não é boa, é só conveniente para os roteiristas que provavelmente estão de olho no próximo filme dessa franquia.

Aí você vai me falar “poxa, Gaby, nem é tanto buraco de enredo assim”. Verdade, não seria, se essas duas decisões não fossem as mais importantes do filme inteiro e as que definem o enredo para o próximo.

assassinscreed2E ah, não vamos parar por aí, porque tem mais buraco nesse longa. A maior cratera de Assassin’s para mim foi como ignoraram a existência de uma coisinha chamada arma de fogo. Se uma pessoa, uma única e singela pessoa tivesse um revólver nessa história, esse filme seria muito mais curto e muito mais frustrante. Aliás, ele não existiria.

Eu entendo que quiseram ser fiel ao videogame e manter os Assassinos com suas armas brancas, mas isso só funciona nos jogos porque eles se passam em outras épocas (e até mesmo alguns jogos têm armas de fogo). Não tem como fingir que uma prisão Abstergo de última geração em pleno século XXI teria guardas equipados com míseros cassetetes. É patético. Fora uma cena no final que chega a ser cômica de tão ridícula, especificamente pela falta de segurança e armas. Não tem nada a ver com a dificuldade de ultrapassar as barreiras de guardas que vemos nos jogos de Assassin’s Creed.

Tirando tudo isso, as cenas de ação são ótimas, com brilhantes efeitos especiais, um figurino de dar inveja, ambientação perfeita e lutas intensas. Do filme todo, é só isso que se salva, e acaba sendo usado para tentar disfarçar as falhas na história muito mal desenvolvida. Infelizmente, não dá para tapar o sol com a peneira, e Assassin’s Creed não chega nem aos pés do filme que poderia ser.

REVER GERAL
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Gaby Nunes possui um sombrio passado otaku e óculos mágicos que a permitem ser não apenas uma tradutora competente, mas também uma excelente observadora da alma humana. Entre um texto escrito sob pressão e uma música do Coldplay, à noite, antes de dormir, ela toma um banho relaxante numa banheira cheia de lágrimas das inimigas.