Chega esse período de final de ano e eu fico aqui desesperadíssimo tentando dar conta de toda aquela caralhada de filmes que eu deixei passar e que eu sinto que havia grandes chances de entrar numa eventual lista de melhores do ano. Também fico bastante ressentido quando faço as contas da quantidade de filmes que vi durante os últimos 365 dias e… nem de longe a conta bate com o número de filmes que eu via naquele tempo em que minha única preocupação era química orgânica. E não são apenas as obrigações de vida civil, trabalho e estudos que prejudicam (rs) o fechamento dessa conta: eu também disputo a atenção com a TV, e esse ano pelas contas que fiz no meu perfil no Banco de Séries, eu assisti simbólicos 943 episódios de séries. Você não leu errado.

Fica difícil competir assim, cinema. TEM MUITA TV SENDO FEITA!!!!!!!!

De qualquer forma, esses são os melhores filmes que eu vi esse ano. Minha única regra é lançamento em nosso país, seja em circuito comercial nos cinemas ou pelo menos em on demand. Ao fim de cada escolha eu teço minhas considerações por exigência do meu amigo Felipe Rocha que ficou #desgostosa quando abriu a lista de melhor séries do ano e não encontrou nenhum textão. Essa é pra você, amiga. Você é TUDO na minha VIDA.

#1 CAROL (Todd Haynes)

Carol é um filme sublime em todos os aspectos possíveis. Parece que estamos diante de quadros pintados com todo o esmero possível, de fazer acreditar que os 24 frames por segundo que estamos contemplando foram talhados à mão, um por um. Além de todo o primor estético, o deleite visual da direção de arte, de figurino e de maquiagem, Carol é um road movie intenso em sua segunda parte e uma história de amor envolvente da primeira à última cena. Só por esses elementos o filme certamente já valeria a pena – e transportar aquela doçura paradoxalmente anódina do livro homônimo de Patricia Highsmith é um feito e tanto – mas nem toda acuidade visual composta por Todd Haynes, Judy Becker e Edward Lachman é grandiosa o bastante se comparado as atuações das duas atrizes principais (sim, principais, e alçar Rooney Mara à coadjuvante foi um dos maiores erros do Oscar em tempos). Isso não quer dizer que o filme se sustente só pelas suas atuações grandiosas e que o rigor estético de Haynes seja trabalho em vão. Mas convenhamos: não tem para onde fugir. Cate Blanchett é um desbunde gravitacional que tensiona todos a sua volta e crava um dos melhores momentos de sua carreira, de rivalizar com Blue Jasmine. Já Rooney Mara é inocência e paixão sem soar artificial ou infantil e o olhar de sua Therese sob Carol poderia transparecer mais idealismo do que amor na posse de alguma atriz menos talentosa. Quando as duas entram em cena, eu juro que não é mero clichê: realmente cada olhar diz muito mais do que um diálogo, que aliados a trilha sonora – sem pestanejar, a melhor da categoria – formam uma amálgama, uma dessas combinações únicas que resulta na que talvez seja a melhor cena do ano (AQUELE final e AQUELE olhar da Cate Blanchett, de fazer qualquer um eriçar cada pêlo do cangote).

carol
misericórdia

#2 A BRUXA (Robert Eggers)

Talvez o marketing de A Bruxa tenha sido um tiro no pé, já que em tempos de scary jump adoidado nos filmes de terror mais convencionais, esse aqui prefira apostar num clima mais intimista e em criar uma atmosfera que seja mais amedrontadora do que o velho clichê do gato passando rapidamente em frente da câmera para nos dar um cagaço. Escolha acertadíssima a de Robert Eggers, porque comparações à parte, um susto-pulo-de-gato é equiparável a um orgasmo masculino humano, que dura uns segundinhos e olhe lá. Se toda a tensão e o horror de A Bruxa pudesse ser colocado em uma fictícia escala de orgasmo, com certeza seria comparável a de um porco, que eu não sei se vocês sabem, tem orgasmos que chegam a durar trinta minutos ininterruptos (e como me dói não poder fazer essa comparação com uma cabra para criar uma rima visual com o filme, já que cabras não tem grandes orgasmos e nem grandes ambições…). Prazeres à parte, A Bruxa é um presente de quase 2 horas em que você pode encará-lo da maneira como desejar. Um horror sobrenatural? Um drama sobre rito de passagem? Me divirto com as coincidências? Me assusto com a melhor cena de possessão em um filme desde a clássica cena da Isabelle Adjani no metrô em Possessão (1981)? Fico querendo adotar uma cabra depois de me apaixonar por Black Phillip? Reflito sobre a questão feminina opressora desde, sei lá, sempre? Seja lá qual for sua escolha, A Bruxa vai te satisfazer em qualquer um desses pontos. Aproveite.

essa cena é TOP
essa cena é TOP

#3 AQUARIUS (Kléber Mendonça Filho)

Eu não vou dizer nada sobre Aquarius porque muito já foi dito. Todo mundo está ciente que é um filme do caralho, que Sônia Braga é um monstro, que tem umas cenas de fazer a gente chorar de tão bem dirigidas e que Kléber Mendonça Filho é um dos melhores do nosso tempo e espaço. Então eu só vou reiterar aqui que o filme levou mais de 150 mil pessoas para as salas de cinema, foi ovacionado em Cannes, tá colecionando prêmios e elogios por onde passa, mas é óbvio que o satanás do Michel Temer e sua corja não curtiram o filme e a gente sabe que isso no fundo, no fundo, diz muito sobre o quão incrível Aquarius é. #FORATEMER #ELeveOPequenoSegredoJunto

que mulher da PORRA
que mulher da PORRA

#4 O ABRAÇO DA SERPENTE (Ciro Guerra)

Sabe aquela foto horrorosa da Ana Paula Valadão invadindo comunidades indígenas com o pretexto de evangeliza-los? Bem, imagine essa situação em um nível ainda mais obscuro por duas horas: isso é O Abraço da Serpente, o filme colombiano que em duas linhas temporais acompanha um índio, o último sobrevivente de seu povo. Ciro Guerra recria o horror do colonialismo e do extermínio indígena na óptica desse índio, ora moço, ora velho. As agruras das comunidades indígenas são mostradas em cenas de gelar a espinha e o diretor colombiano não faz a menor concessão: até a figura de um Messias é desconstruída (em uma das cenas mais incríveis do longa, diga-se), mostrando que em situações de conflito não há apelo religioso que o valha. Em uma viagem longa, espinhosa e psicodélica, Ciro Guerra concebe a obra com a verve de quem filma um longa de guerra, ao mesmo tempo que aposta na placidez nas cenas mais intimistas em que exibe toda a grandiosidade da Amazônia.

serpente

#5 A CHEGADA (Denis Villeneuve)

É, só Denis Villeneuve pra criar uma obra de ficção científica que se ancora na linguística sem parecer pedante e que fala sobre amor e relações humanas sem soar piegas – nesse momento Chris Nolan tenta se explicar com um discurso mais expositivo que os diálogos de Interestelar mas… WHO CARES?

Adendo: Melhor atuação da carreira de Amy Adams e se você não sentiu um pelo se arrepiar com aquela sequência final, pode mandar enterrar que você está morto.

será possível que vou ter que ir eu mesmo entregar um oscar nas mãos dessa mulher?
será possível que vou ter que ir eu mesmo entregar um oscar nas mãos dessa mulher?

#6 TANGERINA (Sean Baker)

Só pelo fato de elencar atrizes trans pra interpretar… personagens trans (olha, isso é possível, Hollywood!), Tangerina já seria um feito e tanto. Realizado com menos dinheiro que um episódio de Os Dez Mandamentos, o filme evoca tanta naturalidade – desde a composição, passando pela realização do filme com aquelas câmeras de iPhone e a impressão de estarmos diante de um documentário feito pra TV – que é impossível não ser fisgado logo nos primeiros minutos de longa. Mesmo falando de uma temática difícil (prostituição de mulheres trans), Baker contorna isso com uma doçura em sua execução e com um olhar apaixonado àquelas duas personagens. Por vezes engraçado, por vezes comovente, Tangerina não precisa de nenhum momento mais político para mostrar sua importância no cinema contemporâneo. A sua própria realização já é mais que o suficiente.

DONAS DA PORRA TODA!!!!!!!!!
DONAS DA PORRA TODA!!!!!!!!!

#7 CINCO GRAÇAS (Deniz Gamze Ergüven)

À princípio, Cinco Graças parece ser um reboot de As Virgens Suicidas, passando em um outro tempo e em outro lugar. Exatamente por se passar num vilarejo turco nos dias atuais é que o filme consegue se desprender do longa de Sofia Coppola: Enquanto em As Virgens Suicidas o enredo principal era uma exceção à regra, em Cinco Graças não existe exceção. Porém, a grandeza do filme está na sua capacidade de evocar esperança e desolação em medidas quase que iguais; se por um lado nos chocamos com a naturalidade da opressão às mulheres desde a tenra idade num local onde homens são pintados com todos os tons de selvageria, ao mesmo tempo nos enchemos de esperança ao observar a forma como o combate ao patriarcado parece surgir desde cedo, de forma natural e quase espontânea.

ué, mas nenhuma delas se chama Graça...
ué, mas nenhuma delas se chama Graça…

#8 O LAGOSTA (Yorgos Lanthimos)

Eu sinceramente não sei mais o que fazer com essas distribuidoras brasileiras que preferem encher as salas de cinema com filmes medíocres do que nos agraciar com obras como O Lagosta, uma distopia romântica que quanto menos você souber antes de assistir, melhor. Ter sido descartado pelas distribuidoras e jogado pra on demand é uma fatalidade, mas deixo aqui um apelo: não percam de vista esse filme. Poderoso como protótipo de ficção científica, como distopia sem a figura de um herói que lute contra o que está vigente e como sátira a vários mitos dos relacionamentos contemporâneos, O Lagosta tem um argumento inicial inteligente, um elenco afiadíssimo e um final poderoso e comovente.

lagosta

#9 ANOMALISA (Charlie Kaufman & Duke Johnson)

Informação não relevante: filmes de animações sempre me levam às lágrimas. Se Shrek 2 me fez chorar, então é quase que uma regra. Mas geralmente esses filmes me fazem chorar de emoção por algum momento bonito, por uma realização de um personagem x, por uma conquista, superação, qualquer um desses momentos que são mais contemplativos e belos do que… tristes. Aí vem Charlie Kaufman e Duke Johnson e dirigem essa animação em stop motion que é de uma tristeza singular. A cena da personagem narrada por Jennifer Jason Leigh cantando Girls Just Wanna Have Fun é absolutamente sublime e eu preciso de ajuda psicológica até hoje por causa dela, deus me livre.

eu tenho problemas psicológicos causados por anomalisa
eu tenho problemas psicológicos causados por anomalisa

#10 FILHO DE SAUL (Làszló Nemes)

Até assistir Filho de Saul, eu poderia jurar que não havia mais nada o que falar sobre nazismo desde O Pianista – até porque entre um e outro nós fomos obrigados a assistir umas bombas nível O Menina do Pijama Listrado. Ledo engano. Làsló Nemes dirige com tanta potência e suas lentes grudam com tanto afã no rosto de Saul que nos primeiros dez minutos não resta dúvidas: essa obra é completamente diferente das demais que ousaram falar sobre Auschwitz, ou pelo menos as mais recentes. Aliás, a escolha em fechar sua câmera sobre o rosto de Géza Röhrig em quase toda sua execução é irrepreensível. O rosto pétreo e a sua expressão que vai do torpor e resignação à angústia e desespero em milésimo de segundos é uma das combinações mais viscerais já concebidas sobre os dramas dos judeus nos campos de concentração. Justamente pela vastidão de filmes já feitos sobre esse momento obscuro, Filho de Saul pode soar como clichê ao revisitar uma temática já vista, revista e revirada no cinema. Na teoria sim. Mas na prática, definitivamente não.

eu tenho problemas psicológicos causados por anomalisa
eu tenho problemas psicológicos causados por anomalisa

Menções Honrosas:

#11 Boi Neon (Gabriel Mascaro)
#12 Academia das Musas (José Luis Guerín)
#13 O Lamento (Na Hong-jin)
#14 O Quarto de Jack (Lenny Abrahamson)
#15 A Garota de Fogo (Carlos Vermut)

Por: Ralzinho Carvalho